Às vezes fico pensando em como seriam as histórias se fossem escritas ou contadas contendo apenas momentos felizes. Talvez não tivessem graça, como todo mundo diz. Mas decidi comentar um pouco sobre um estilo de histórias que já vem sendo bem desvalorizado por todos de uma forma geral. Apesar de serem TOTALMENTE surreais, COMPLETAMENTE falsos, os contos de fada me atraem de uma forma realmente assustadora.
Quando pequena, eu não costumava prestar atenção nessas historinhas infantis. Nunca tive nada contra, mas nunca me chamaram àtenção. Nunca me esqueço do Jardim I. O fiz quando tinha quatro anos (eu realmente me lembro), e naquele tempo, contos de fada não tinha valor algum pra mim. Minha professora se chamava Neide e eu a achava linda! Mas o fato importante não tem muito a ver com isso. Certo dia, ela chegou à sala de aula com algumas folhas na mão. Éramos uns trinta alunos ou mais, e estávamos todos assentados em roda em torno da sala. A "tia Neide", como a chamávamos, disse que faríamos uma peça de teatro para apresentar na reunião de pais que seriam a alguns dias dali. "Qual peça?" logo perguntaram. "Branca de Neve" a "tia" logo respondeu. Não demorou muito para que todas as meninas começassem a suplicar: "Tia, deixa eu ser a Branca de Neve?". Ouvia-se um coral feminino clamando sem parar.
- Escolhi a princesa antes de chegar à escola... - ela tentou acalmar as garotas.
- Fui eu, tia? - continuaram a ladainha.
- Sentem-se, meninas.
Pouco depois, sentaram-se. Todas ficaram atentas (isso era raro) e os meninos nem se importavam com o que estava acontecendo. Logo, a nomeação começou: "Rafaela será a madrasta". Rafaela era minha melhor amiga, gostaria de reencontrá-la hoje. Depois de nomear todos os anões, Neide soltou enfim o nome da princesa, frase que jamais serei capaz de esquecer:
- Amanda, você foi escolhida para ser a princesa.
Isso tem mais importancia pra mim hoje do que quando fui uma "princesa". Só um pequeno detalhe a evidenciar. Toda princesa tem que ter um príncipe (de acordo com os contos de fada). Eu também tive. Mas a "tia" levou um tempo para escolhê-lo. Assim que soube que seria uma princesa, passei a reparar em todos os meninos da turma. Tentava deduzir quem a tia escolheria para ser meu príncipe, se bem que eu nem ligava muito pra isso. Pensei que pudesse ser o Daniel, meu melhor amigo. Ou talvez pudesse ser o Thalis, o menino mais paparicado pelas meninas da sala. Ou o Vítor, um loirinho que ficava sempre bem quietinho durante as aulas. É claro que eu nunca deixava entrar na lista das possibilidades, aqueles baixinhos da turma como o Fernando e o Netinho...
Depois de tanto pensar, a "tia" resolveu revelar o nome do príncipe. Ele não era da minha sala. Era do terceiro período. Fui conhecê-lo só no terceiro ensaio. Fiquei algum tempo tentando deduzir o porquê de a tia o ter escolhido. Não tinha beleza alguma, inclusive era bem gordinho e parecia um indio. Ainda bem que o beijo foi na mão (nada contra gordinhos ou outros esteriótipos). Pra dizer a verdade, eu nem me importava, eu estava feliz por ser a princesa, o príncipe nao me importava.
Entretanto, as princesas crescem... Deixam de ter quatro anos.
Aos treze anos, essa mesma princesa conheceu um príncipe de olhos verdes chamado André. Foi o príncipe que melhor representou o papel, fisicamente. Mas a princesa se intimidou e deixou que o príncipe fosse embora conhecer princesas de outros reinos.
Completando quatorze anos, a princesa conheceu um valente guerreiro chamado Calebe. O problemas era que ele era valente apenas em alguns momentos e ele não conseguia desejar uma princesa só - príncipe só no nome.
Ao completar quinze anos, a princesa conheceu um pianista real, de um reino bem distante que chamou muito sua atenção. Mas na história do pianista, estava escrito que seu coração pertencia a outra princesa de um reino bem mais encantado.
Ela estava farta de conhecer tantos príncipes que não era capaz de lhe fazer rainha. Como as outras princesas, esta tambem tinha muitas propostas de reinados. Muitos príncipes alegavam de que suas histórias possuíam o nome da princesa escrito e que um trono a esperava. A princesa não se importou. Sabia que seu trono estava reservado em algum lugar, distante ou não dela.
Completou dezesseis anos e conheceu outro príncipe. O único merecedor de ser chamado "ENCANTADO". Quando a princesa o viu, pôde realmente usar o termo "princesa encantada", pois foi dessa maneira que ficou quando o viu, ou melhor, o reencontrou. Esse era aquele mesmo príncipe do primeiro período... Era um daqueles que nunca entraria em sua lista de possibilidades para ser o príncipe da peça de teatro. O príncipe também se encantou pela princesa e parecia que a histórias dos dois poderia ser finalmente escrita. O príncipe dizia coisas belas à princesa através de mensageiros reais. Ele era bastante tímido, o que deixava a princesa cada vez mais encantada. Até que um dia, o príncipe ofereceu o trono à princesa e ela aceitou sem nem pensar (claro que não, ninguem pensa em contos de fada). Mas com o tempo, o mensageiro sumiu. Era necessario que o príncipe passasse a entregar suas próprias cartas, ou dizer palavras com a própria boca. O príncipe não foi capaz, esqueceu-se rapidamente da princesa. Quando a primeira lágrima rolou no mundo mágico da princesa, ela percebeu que aquele príncipe não era encantado e que ela não era uma princesa. Aquilo não era um conto de fada. Aquilo era realidade, isso É real.
Não existem príncipes, não existem princesas. Não existem contos de fada, eu sei disso. Mas eu gosto deles. Gosto de sonhar com castelos, com vestidos longos, com bailes... Mas príncipes, não. Esses não existem nem em contos de fada pra mim. Pelo menos não mais.